Catarina Marques Rodrigues: “A diferença é para ser celebrada, não é para ser contrariada”

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Depois de dois anos e meio no Observador, a jornalista Catarina Marques Rodrigues chegou à equipa de multimedia da RTP no final de 2016. Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela NOVA FCSH, conversou com a NOVA Magazine sobre o seu percurso académico e profissional, o papel do jornalismo e os direitos humanos em Portugal.

Catarina Marques Rodrigues venceu, em janeiro, o Prémio Arco-Íris da ILGA pela reportagem “A Vida no Colégio Militar: ‘Parece um Big Brother’”. Especializada em direitos humanos e minorias, faz um balanço da luta pela igualdade de género e da evolução que se tem verificado na garantia dos direitos LGBTI.

Fale-me sobre o seu percurso académico na NOVA FCSH.

Tirei a licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais e depois comecei a tirar um mestrado em Jornalismo e, ao mesmo tempo, uma pós-graduação em Jornalismo Multiplataforma. Não acabei nem um nem outro porque entretanto comecei a trabalhar no Observador: fiz um semestre do mestrado e estive quase a acabar a pós-graduação mas optei por começar a trabalhar.

Ter estudado Ciência Política e Relações Internacionais na NOVA influencia o trabalho que desenvolve atualmente? Se sim, de que forma?

É um bocadinho difícil perceber isso. Uma das coisas boas do curso que se calhar hoje me ajuda é o facto de ter tido cadeiras muito abrangentes, com temas muito diferentes, como economia, política internacional, sociologia até. Deu-me várias bases para pensar coisas diferentes e deu-me, sobretudo, vontade de conhecer mais do mundo, de querer ler mais. Sempre tive essa curiosidade e hoje em dia mantenho essa ideia de querer sempre conhecer mais sobre como é que os sistemas políticos e a economia funcionam. Não tirei Ciências da Comunicação portanto não tenho grande ideia de como é o curso exatamente. Sei que no meu, apesar de não me ter ensinado nada prático, as aulas de análise de obras de autores muito conhecidos e de clássicos, as discussões com os professores sobre coisas que estavam a acontecer naquele momento, tudo isso abriu-me a cabeça.

Mas fez algumas cadeiras de Ciências da Comunicação…

Sim, fiz. No último ano tínhamos a opção de escolher algumas cadeiras livres e no segundo ano já tinha percebido que afinal não queria Ciência Política e que queria jornalismo, então decidi começar a tentar apostar nisso. A única forma que tinha para começar a ter algumas bases eram essas cinco cadeiras livres que escolhi do curso de Ciências da Comunicação. É a mesma lógica que me levou depois a tirar ao mesmo tempo o mestrado e a pós-graduação: tentar o máximo possível aproximar-me daquele objetivo.

“Sou a melhor pessoa que vocês podem contratar, não se vão arrepender”

Como caracteriza as suas experiências no Observador e na RTP até agora?

Comecei no mestrado e na pós-graduação em setembro/outubro e em janeiro apareceu um anúncio a dizer que ia surgir um jornal novo e que quem se quisesse candidatar tinha de mandar o currículo e a carta de motivação. Decidi candidatar-me mas não achava que conseguisse ficar porque não tinha experiência, nem sequer tinha tirado o curso na área, mas fiz uma carta de motivação a dizer: “Sou a melhor pessoa que vocês podem contratar, não se vão arrepender”. Depois fui a uma entrevista e fiquei, para minha surpresa. Aí tive de decidir o que ia fazer porque era impossível começar a trabalhar e continuar a estudar, mas como o que eu queria mesmo era pôr as mãos na massa optei por começar a trabalhar.

O Observador foi uma escola espetacular porque grande parte de nós éramos muito novos. Tenho 24 anos e comecei lá com 21, portanto aprendi muito. Os mais velhos eram todos muito bons, já tinham muita experiência e ajudaram muito os mais novos: no início tivemos várias formações com eles e com outras pessoas que vieram de fora para nos ajudar a fazer as peças, a utilizar métodos multimedia, a usar o iPhone para gravar, a conseguir tirar e editar uma boa fotografia. Sempre me identifiquei muito com esse espírito de, se puderes tu fazer tudo, é melhor do que estares dependente de alguém.

E a chegada à RTP?

Estive no Observador dois anos e meio e depois recebi um convite para ir trabalhar para a RTP para o multimedia. Aceitei porque achei que já estava numa fase em que precisava de crescer. A RTP tem potencialidades enormes porque lá podes fazer o verdadeiro jornalismo multimedia: no mesmo edifício, desces as escadas e tens a redação de televisão, vais para o segundo ou terceiro andar e tens a rádio. Lá, se tu quiseres, tu consegues que a tua reportagem ou a tua notícia tenha um impacto brutal porque pode chegar aos ouvintes da rádio, aos telespetadores dos vários canais da RTP e a nós todos que andamos sempre com o telemóvel na mão diariamente.

A preocupação com questões de direitos humanos e minorias é muito visível no seu trabalho. Quando e como surgiu este interesse?

Quando era pequenina queria ser advogada porque tinha aquela visão idealizada e que ainda não perdi, a de imaginar-me como advogada num tribunal a defender as pessoas que têm menos hipóteses de ser defendidas. Cheguei mesmo a ter alguns sonhos com isso, na barra do tribunal a defender e depois a sair gloriosamente com o meu ou a minha cliente com a missão cumprida. Depois quis ser deputada pela mesma razão porque imaginava-me também no Parlamento a fazer e a mudar leis, a advogar pelos direitos de alguém ou a tentar fazer alguma coisa para corrigir a desigualdade de oportunidades. Depois percebi que gostava muito de contar histórias. Sempre gostei mais de Português e escrever composições era a minha parte preferida. Percebi que também podia tentar mudar alguma coisa com o jornalismo.

“Tens de ser muito responsável com as histórias das pessoas que as partilham contigo, não podes traí-las”

Que papel pode assumir o jornalismo para a redução das desigualdades e discriminações na sociedade?

O jornalismo tem um poder gigante e percebi isso quando comecei a trabalhar. A minha primeira grande reportagem foi sobre crianças transgénero. Em Portugal nunca ninguém tinha feito uma reportagem sobre o tema. A reportagem foi publicada e depois recebi e-mails de psicólogas, de pais e mães e a Associação AMPLOS, que foi quem me deu este caso para eu falar, disse-me que por causa daquela reportagem tinham chegado muitos mais pais e mães com os seus filhos a pedir ajuda para os compreenderem e ajudarem. Naquele momento percebi que simplesmente falei com uma mãe, fui assistir a um encontro, escrevi e publiquei mas aquilo mexeu com as pessoas que leram. Isto fez com que uma mãe ou um pai pensassem: “Não estou sozinho no mundo, há outras pessoas, como se vê nesta reportagem, que estão a passar pelo mesmo que eu, então se calhar vou ultrapassar isto e vou tentar perceber mais, tentar compreender, aceitar ou tolerar”. É um poder gigante porque mexeste com a vida daquele pai e daquela mãe e com a vida, sobretudo, daquele filho ou daquela filha que passaram a ter um pai ou uma mãe que, pelo menos, quiseram ir à procura de respostas. A responsabilidade também é grande: nos temas LGBTI tenho sempre imenso cuidado para escrever os termos como deve ser porque se colocas um termo errado pode propagar-se e depois é muito difícil desmontar isso e voltar atrás. Tens de ser muito responsável com as histórias das pessoas que as partilham contigo, não podes traí-las e tens de as respeitar muito.

O que diria aos jovens estudantes universitários que ambicionam entrar no mundo do jornalismo?

É muito importante tentares fazer tudo para que, quando chegue o momento, estejas preparada, ou seja, ler muito, ver televisão, ouvir rádio. E depois começar, nem que seja no jornal de uma terra pequena, nem que seja sem receber. A partir do momento em que começas percebes o que é que tens de estudar mais e que área é que gostas mais. É veres na tua vida que oportunidades é que podes agarrar para conseguires esse objetivo, que buracos é que podes preencher no teu dia a dia para começares a chegar mais longe, que pessoas é que conheces, onde é que podes ir bater às portas. Hoje em dia todos os jornalistas têm Facebook, têm Twitter, ou seja, facilmente chegas a eles. Tens de ser chata porque não te vão responder aos e-mails logo à primeira mas tens de insistir. Quando sabes que há um evento onde a imprensa vai estar, por exemplo, vais assistir, ver como é que se faz. Também podes participar em projetos onde não recebes mas ganhas experiência. Por exemplo, eu fazia parte do Espalha-Factos, que te permite ir a eventos com acreditação de imprensa.

O Ricardo Araújo Pereira disse uma coisa numa entrevista que nunca mais me esqueci: o talento é mesmo só 1% porque o talento pode estar lá mas, se não o trabalhares, não vais chegar a lado nenhum. A disciplina também é uma forma de talento, ou seja, querer saber mais, aprender mais, ver o que fazem os órgãos lá de fora. Também é muito trabalho, neste caso, ler muito, escrever e voltar a escrever, ver como estão construídas as peças de televisão ou de uma revista, tentar imaginar “se não fosse este título, que título é que eu daria?”

“Portugal é dos países que mais protege os direitos LGBTI em termos de leis. O que falta tem a ver com a mentalidade”

A igualdade de género é um tema cada vez mais debatido, em parte devido ao trabalho de organizações como a Capazes e as Chicas Poderosas, da qual faz parte. O que é que falta fazer para, em Portugal, se atingir a plena igualdade?

Sei que falta muita coisa. Quando era mais miúda tive um momento-chave: tinha 13 anos, estava num colégio católico e tinha uma amiga que se apaixonou por outra amiga minha. Houve pessoas que descobriram que elas namoravam e não acharam piada à ideia. Naquele momento percebi que nem toda a gente pensava como eu, porque aquilo para mim era normal. Ainda hoje penso que há muita gente que não pensa como eu mas sei que isso é reversível.

Em Portugal faltam mulheres em cargos importantes, com opiniões a serem valorizadas e ouvidas. Falta acabar com as pequenas misoginias, com os pequenos assédios do dia a dia. Falta liberdade para as mulheres. Está a conseguir-se esse caminho sobretudo com as gerações mais novas, que têm uma abordagem muito mais desempoeirada, como as Chicas Poderosas, por exemplo. [Falar em] Direitos humanos não se trata de tirar a uns para dar a outros, é dar a todos e, a partir do momento em que homens e mulheres percebam isto, toda a gente vai beneficiar. Está mais que provado que as economias dos países beneficiam quando mulheres e homens têm as mesmas oportunidades. Não dar as mesmas oportunidades é estar a desperdiçar talento.

Diversos meios de comunicação social destacaram a diferença de idades entre o presidente francês Emmanuel Macron e a sua mulher Brigitte Macron, quando aquele foi eleito. Que motivos encontra para este assunto ter sido tema de conversa?

A primeira razão é: os jornais precisam de cliques e fazerem títulos como “conheça a mulher de” é chamativo e se for “conheça a mulher de Macron que é 24 anos mais velha que ele” ainda mais apelativo é. Repara que é sempre “a mulher de”, nunca é “o marido de” (ou muito raramente é). Não há problema nenhum em dizer-se que ela tem mais 24 anos do que ele, o problema é quando aí entram discursos misóginos ou frases que não são nada imparciais, rigorosas e limpas como deve ser o jornalismo. Este é um caso típico em que a responsabilidade falhou. Houve muitos meios de comunicação social que não foram responsáveis e corretos porque propagaram o insulto e o preconceito.

A justificação do título do Observador “barbie com menopausa” é que aquele título foi o que outro jornal usou. No meio do texto podias referir que houve um jornal a fazer esse título mas não podes dizer que aquilo é o mais importante. Podes fazer um texto sobre quem é a mulher de Macron mas tens de ter cuidado na forma como falas das coisas. É um facto que ela tem mais 24 anos que ele, mas é só isto. Enquanto jornalista, acho que o mais importante é as pessoas perceberem como é a relação deles, qual é a influência que ela tem nele e quem é ela enquanto primeira-dama. Também há discriminação no lado oposto – quando uma mulher mais nova está com um homem mais velho –  mas a discriminação é sempre para a mulher. Trump não recebeu grandes críticas por estar com uma mulher mais nova.

Quanto aos direitos LGBTI, que passos ainda falta dar para que estejam garantidos?

Portugal é um dos países que mais protege os direitos LGBTI a nível da legislação, porque temos o casamento entre pessoas do mesmo género, a coadoção e a adoção. Agora temos três projetos de lei que irão ser discutidos para as pessoas transgénero e transexuais. Hoje em dia uma pessoa se quiser mudar o género e o nome no registo civil precisa de um diagnóstico de vários médicos a atestar que tem uma perturbação de identidade de género e tem de ter 18 anos para o fazer. A proposta de lei do governo para alterar essa lei é que possa ser aos 16 anos e que deixe de ser preciso um diagnóstico, ou seja, basta a vontade da pessoa.

Em termos de leis estamos bem, o que falta tem a ver com a mentalidade. O que falta é que o João em Freixo de Espada à Cinta, por exemplo, possa dizer à mãe que gosta de um rapaz e que a mãe não o faça esconder-se, sair de casa ou obrigá-lo a ter uma namorada. Falta as pessoas aceitarem que, mesmo que aconteça na família delas ou com os amigos delas, está tudo bem. Temos de mudar o chip para percebermos que quer seja com um homem quer seja com uma mulher, o que importa é que a pessoa seja feliz . Falta mudar a linguagem.

No caso das crianças deve-se deixar que elas escolham em vez de começar logo a impingir tudo o que é cor de rosa para uma menina, por exemplo. Os pais nunca vão ser donos dos filhos, se eles quiserem fazer determinadas escolhas eles vão fazê-las. Ninguém é responsável por ninguém e não se escolhe de quem se gosta, não se escolhe aquilo que se é. É bom sermos todos diferentes. A diferença é para ser celebrada, não é para ser contrariada porque, se formos todos iguais, nunca descobrimos nada de novo.

 

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Sobre o/a autor/a

Nasci em Lisboa mas o meu coração é também de Almada, onde sempre vivi. A preferência pela leitura e pela escrita levou-me a escolher Ciências da Comunicação, que estudo na FCSH-UNL. Ambiciono ser jornalista e estou sempre a par do que se passa no mundo do desporto, especialmente no futebol, mas a minha curiosidade e vontade de descobrir o que há de novo abrange os mais diversos setores. Viajar, fotografar, cozinhar (e, sinceramente, comer) são outras das minhas grandes paixões.

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