ILNOVA: dizer olá ao mundo de 29 formas

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No ILNOVA a lista de idiomas não se conta pelos dedos. Hindi, hebraico, indonésio, turco, sérvio e árabe fazem parte da oferta que chega a quase 30 línguas. Das mais convencionais às menos comuns, todas têm algo em comum: há sempre um aluno que quer aprendê-las. 

Filipe Alves é um dos cerca de mil alunos que já passaram pelo Instituto de Línguas da Universidade Nova de Lisboa (ILNOVA). O guia intérprete de 30 anos já tinha tentado inscrever-se duas vezes, mas não havia alunos suficientes. “Este ano começámos dois, mas o outro [aluno]foi para a Austrália. Por isso, agora vou ser o único”, admite. O seu interesse pelo idioma surgiu devido ao contacto profissional que tem tido nos últimos anos com orientais. Os indonésios e malaios sempre o atraíram pela “simpatia natural e o modo relaxado como abordavam as viagens”. Além de descobrir que o bahasa, idioma da Indonésia, era recente, com cerca de 90 anos, percebeu também que este idioma tem palavras de influência europeia, incluindo “umas centenas de influência portuguesa”, revela.

Para Filipe, o indonésio “não é tão difícil como tanta gente pensa. Há é que memorizar muita gramática, vocabulário, enfim, o normal numa língua nova. Mas é um grande desafio”. O intérprete admite que nunca teria aprendido este idioma, caso a profissão não o exigisse, mas espera ficar ainda mais tempo no ILNOVA.

Filipe não é o único com vontade de aprender novas línguas. Graças a ele e a cerca de 1000 alunos, o ILNOVA conquista o título de Instituto de Línguas com a maior oferta nacional, com 29 idiomas, de acordo com Carlos Ceia, seu diretor.

O ILNOVA foi fundado em Julho de 2006 por Carlos Ceia, professor da NOVA FCSH,  João Sáàgua, diretor na faculdade nessa época, e Filipe Furtado, também professor na instituição. Abriu portas no campus da NOVA FCSH com cerca de 300 alunos e com menos de 10 idiomas, mas entre eles já se encontrava o japonês, o árabe e o russo. Recentemente tem vindo a apostar em línguas mais exóticas, como o hindi e o indonésio. Mas como é que se passa de menos de 10 línguas para quase 30?  “Sempre que há alunos à procura de uma língua, eu tento arranjar um professor”, revela Maria Augusta Guerreiro, secretária do ILNOVA. Nem sempre é uma tarefa fácil, como nos casos  do checo e do tailandês, para os quais ainda não conseguiu arranjar docentes.

O instituto beneficia também do aumento de estrangeiros a viver no país: já houve alunos do programa Erasmus a lecionar. Quando foi criado, juntaram-se “todas as ofertas existentes numa única estrutura, aproveitando os docentes nativos dessas línguas”, esclarece Carlos Ceia. Foi  assim que o árabe chegou ao ILNOVA: “tivemos a sorte de ter na altura o atual docente a trabalhar na NOVA FCSH como aluno pós-graduado”, conta. “Como falava bem português e tinha as qualificações necessárias, foi recrutado e estamos muito satisfeitos com o trabalho realizado nestes 10 anos.”

Abdeljelil Larbi é professor de árabe no ILNOVA desde a sua fundação. A procura do idioma que leciona tem vindo a aumentar de tal maneira que  ocupa o quarto lugar dos mais procurados no instituto:  tem sete turmas e  53 alunos. E não é por acaso que isto acontece. Para Abdeljelil, o principal motivo desta procura são as ofertas de emprego em países árabes e em empresas multinacionais dentro e fora do território nacional. Segundo o professor, o árabe, que é falado em 22 países, é muito procurado por “estudantes e investigadores na área de relações internacionais e de estudos de comunicação social”, assim como “na área de segurança e em estudos culturais em geral”. Uma “excelente prova da sua importância no presente e no futuro”, acrescenta, “é o campeonato em língua árabe entre universidades árabes e internacionais que se vai realizar em Doha, Qatar”, o QatarDebate. Este concurso internacional vai contar pela primeira vez com a presença de alunos portugueses, dos quais quatro pertencem ao ILNOVA.

É precisamente por considerar que o árabe lhe pode vir a ser útil no futuro que Paulo Vitorino está a fazer o B1.2 (equivalente ao terceiro nível). “Tenho a consciência de que em Portugal quase ninguém fala árabe. Embora muitos aprendam,  acabam por desistir ou não têm capacidade para realmente pôr em prática o que aprendem.”

O estudante da licenciatura de História na NOVA FCSH está numa turma de oito alunos, entre os quais uma italiana, uma espanhola e dois portugueses reformados. Tem consciência de que não é muito comum encontrar pessoas que queiram aprender esta língua, mas considera que a sua procura tem vindo a aumentar e “já ultrapassou outras línguas mais convencionais”. Admite, porém, que não tem muitas oportunidades para praticar fora das aulas. “A não ser a mesquita, não há nada que identifique [o idioma e a cultura], como uma casa árabe ou algo do género.” O número diminuto de imigrantes árabes reforça essa dificuldade.

Embora apenas tenha dois tempos verbais, Paulo Vitorino esclarece que o árabe possui 13 pronomes pessoais,  o que não parece ser um entrave, já que para o estudante de História o árabe  é “uma língua muito bonita” e deixar de estudar este idioma está “fora de questão”.

Se para Paulo Vitorino a escrita é fácil, o mesmo não diz Margarida Santos, estudante do nível A1.2 (equivalente ao primeiro nível). A consultora de internacionalização de empresas acha difícil aprender a escrever de novo e da direita para a esquerda. No entanto, considera que o idioma é extremamente interessante e que assim que se entende a lógica que está na base da língua, tudo se apreende com maior facilidade.

Dos idiomas mais populares aos menos conhecidos

Atualmente, o top 10 das línguas mais procuradas no ILNOVA é ocupado pelo inglês, alemão, mandarim, russo e árabe, francês, japonês, sueco e espanhol, neerlandês, italiano, dinamarquês. A estas acrescentam-se mais 17, incluindo o hindi, o turco, o romeno, o búlgaro, o grego moderno, o hebraico e a língua persa.

Procurado tanto por estudantes como por trabalhadores, há, segundo Maria Augusta Guerreiro, os que  querem aprender uma nova língua porque vão para fora estudar ou porque é obrigatório, os trabalhadores de empresas internacionais que querem subir na carreira ou fazem muitas viagens ou simplesmente os que querem ir para fora arranjar trabalho.

Pedro Silva Pinto está neste momento a aprender tétum, a língua nacional de Timor-Leste, mas não faz questão de atingir um nível muito elevado. A sua finalidade é pragmática: “eu quero falar com as pessoas, quero entender-me com as pessoas, não sou um estudioso”.  Pedro é consultor de Tecnologias de Informação. Tudo começou quando foi a Timor não como turista, mas como espeleólogo, para explorar grutas, atividade que realiza há quase 20 anos. Ao fim de um mês, regressou a Portugal “cheio de vontade de lá voltar”. Apaixonou-se pelo país, mas sentiu que era importante dominar o idioma para se tornar mais próximo dos timorenses, de tal forma que ainda não tinha saído de lá e já estava a pensar em inscrever-se num curso de tétum. E assim foi.

Este é já o segundo semestre no ILNOVA, mas atualmente é o único aluno. O facto de só falar o idioma com o professor dificulta a sua aprendizagem, ainda que tenha alguns amigos timorenses com quem fala por email. “Não é como o inglês em que a gente vai ver séries para a televisão e está a aprender”, acrescenta. De qualquer maneira, revela estar a gostar muito da experiência de aprender tétum e de ser novamente estudante.

 

 

 

 

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Sobre o/a autor/a

Na esperança de mostrar às pessoas que não temos acesso a toda a informação, decidi transformar a minha paixão pela escrita numa profissão. Acredito que a forma como vemos o mundo está toldada sobretudo pelos interesses de minorias, ainda que nos façam crer o contrário. O desejo de mudar esta realidade foi um dos motivos pelos quais decidi perseguir o sonho de ser jornalista. Existe um enorme “backstage” por descobrir e eu pretendo revelá-lo, por mais utópico que este objetivo possa parecer.

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