Uma NOVA melodia

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Quase a celebrar 30 anos em 2018, o Coro da Universidade Nova de Lisboa continua, no entanto, a ser desconhecido da comunidade académica. Ao pouco interesse na música junta-se a pouca formação, explica o maestro. Mas os 40 coralistas que o compõem continuam a apostar em ser música para os ouvidos da NOVA.

Sábado. O Sol brilha em Lisboa. São dez horas em ponto, quando a Nova Magazine chega ao Campo Mártires da Pátria. Foi conhecer o Coro da Nova, que ensaia na Nova Medical School.

A segurança, ao abrir a porta, informa que nunca chegam a horas. Os corredores vazios reforçam a afirmação. Quarenta e cinco minutos depois, chegam os primeiros elementos que esboçam um sorriso caloroso. É hora de rumar ao auditório onde hoje ensaiam.

Chega, entretanto, o maestro João Valeriano que não parece surpreendido por estarem apenas dois coralistas na sala. “Há pouco interesse na música em Portugal porque há pouca formação”, confidencia o maestro, enqaunto vai buscar o piano portátil Roland que coloca no púlpito do gigante auditório, normalmente cheio de futuros médicos, mas que hoje se rende aos encantos da música. É hora de começar a aquecer as vozes dos sopranos e contraltos. O público de hoje é uma imensidão de cadeiras azuis.

Lentamente começa a soar no ar uma melodia triste, ora não se tratasse de um Requiem, uma missa para os mortos, como é vulgarmente conhecida. Contrastando com a música, respira-se uma atmosfera amigável, como se já trabalhassem juntos há muitos anos. Depois de cinco minutos de ensaio, é tempo para a pausa do café para depois, sim, começar “a sério”. O maestro explica que esta é uma tradição de há já muito tempo.

Quem também já tem muito tempo é o próprio Coro da Nova que nasceu em 1988. Surgiu como uma iniciativa dos alunos da Faculdade de Ciências Médicas, mas rapidamente se tornou transversal ao universo da Universidade Nova de Lisboa. Foi com o apoio do maestro Artur Carneiro que acolheu os primeiros membros oriundos de outras unidades orgânicas.

João Valeriano tornou-se maestro do Coro da Nova em 1994. A oportunidade surgiu quando o seu amigo Artur Carneiro, e primeiro maestro do coro, desistiu e o indicou. “Todos os meus irmãos tiveram educação musical: tenho duas irmãs pianistas, um irmão que era violinista. Eu fui o único que enveredei pela música, embora tenha tido outro tipo de formação”, aponta.

Ao longo dos quase 30 anos de existência o Coro manteve a sua missão intacta: divulgação da música portuguesa e de vários períodos musicais de forma gratuita. O seu reportório passa por temas imortalizados como o Magnificat de Bach ou o Requiem de Fauré.

Os 40 elementos do Coro pertencem a universos muito diversificados. Cristian Ospina é exemplo disso. Nasceu na Colômbia e veio para Portugal há sete anos fazer um Mestrado em Relações Internacionais na NOVA FCSH. Hoje, pertence à Direção do Coro. “Eu já cantava na Colômbia. Vim para cá e estava muito ocupado com o trabalho e a faculdade, deixei a música de lado. Há cerca de dois anos comecei a sentir a falta, outra vez, e comecei a pesquisar e encontrei o Coro da Nova”, conta o tenor colombiano.

Em 2008, o Coro da Nova tornou-se uma associação sem fins lucrativos. “Teve de se formar nessa altura para questões formais”, explica Luís Cordeiro, presidente da Direção. Nada mudou em concreto na organização administrativa do Coro que já estava dividido em Direção Artística e Direção Executiva. A novidade surgiu com o conselho fiscal, “um órgão que valida todas as contas”.

A atividade anual regular do Coro pauta-se, essencialmente, por duas temporadas de concertos, Primavera e Natal. Em ambas, os concertos realizam-se em zonas de Lisboa, sobretudo na área de influência da NOVA. A Reitoria é sempre o local onde se inicia uma nova temporada. Também são contempladas algumas igrejas de Lisboa e o Festival de São Roque, igualmente na capital portuguesa.

A paixão pela música é a cola que une o Coro da Nova. “Temos aqui médicos, arquitetos, engenheiros, matemáticos, pessoas ligadas às línguas e à comunicação”, salienta Luís Cordeiro.  O que é, de facto, comum a todos os coralistas é a ligação que possuem à Universidade Nova de Lisboa. Este é um elemento fundamental a referir aquando da candidatura ao Coro.

A angariação de novos elementos processa-se de uma forma bastante simples. Basta mandar um email com o nome, o local que estuda e qual o interesse no Coro. A partir daí estabelece-se um contacto. É feita uma audição com o maestro e mais alguns coralistas. A entrada para o grupo deve, preferencialmente, ser feita no início dos trabalhos, antes de cada temporada de concertos.

Entretanto vão chegando os baixos e os tenores, e o Coro vai ficando mais composto. A melodia fúnebre continua a entoar e vai ganhando cada vez mais forma à medida que as vozes masculinas se juntam. Agora os quatro naipes estão a ensaiar juntos, mas nem sempre é assim que acontece. “No início separamo-nos em naipes, enquanto não sabemos muito bem as peças”, acrescenta Luís Cordeiro.

Coro além-concertos

Nem só de concertos vive o Coro da Nova: também promove workshops de técnica vocal com convidados. A questão da formação interna é algo em que o grupo tem procurado apostar, visto que muitos dos coralistas não têm educação musical. Está prevista, no futuro, a criação de uma plataforma de formação interna. As aulas seriam sobre temas relacionados com a atividade coral, como por exemplo movimento corporal. Ter formação musical não é uma condição essencial para entrar no Coro da Nova. “O que é obrigatório para estar no Coro é, obviamente, ter alguma apetência musical, aquilo que se chama ter ouvido, ter voz”, elucida Luís Cordeiro.

Os fins de semana intensivos são um ritual do qual o Coro da Nova não prescinde. Acontecem, sem exceção, fora da capital. São dois dias de trabalho musical que tomam lugar duas vezes por ano, antes das temporadas do Natal e da primavera. Como diz o presidente da Direção, “suficientemente perto de Lisboa e suficientemente longe”. Além de serem fulcrais no aperfeiçoamento das peças a levar a concerto, ajudam à integração de novos membros e fortalecem as relações de amizade.  “No fundo temos a preocupação de garantir que o fim de semana intensivo não é vedado a ninguém nem por questões económicas nem por questões logísticas”, explica Luís Cordeiro.

João Valeriano é adepto destes fins de semana. “Fazemos num fim de semana o trabalho de um mês. Nós ensaiamos duas vezes por semana duas horas. Lá fazemos cerca de doze horas de trabalho”, conta o maestro. A coralista Joana Severo refere o lado reverso da moeda, o que se passa depois das horas de trabalho: “São momentos também que contribuem muito para o convívio, para que as pessoas se conheçam e não fiquem só limitadas aos períodos de ensaios”. Em outubro do ano passado, o fim de semana intensivo aconteceu na Herdade do Moinho Novo em Canha, no Montijo.

O Coro da Nova não está também indiferente às causas humanitárias. Através do “Coro Solidário” são apoiadas, anualmente, associações de solidariedade social. As atividades realizadas variam consoante as oportunidades que surgem. Em 2016, participaram na iniciativa “Música sem Fronteiras” no CCB que juntou coros e orquestras universitárias, sob a direção da maestrina Joana Carneiro, em apoio aos refugiados.

Esta causa sensibilizou os elementos do Coro. No passado dia 8 de março, teve lugar na reitoria da Universidade Nova de Lisboa um ensaio com adolescentes que vivem na Casa de Acolhimento para Crianças Refugiadas, na Bela Vista. “O objetivo era mostrar-lhes a Universidade, dar-lhes a perspetiva do que a Escola pode fazer por qualquer um de nós. O direito ao ensino que nós temos e que eles também têm por cá estar”, explicou Luís Cordeiro. Em anos anteriores, foram realizadas ações junto de idosos em situação de isolamento, com o apoio da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e na Casa da Criança de Tires.

Mais do que tudo, o Coro da Nova tenta chegar à comunidade académica. São múltiplas as tentativas de aproximação às diversas unidades orgânicas. Em anos passados foram realizados “ensaios na comunidade”, como lhe gostam de chamar os membros do Coro. São, resumidamente, dias passados a ensaiar numa das faculdades  e a interagir com os alunos, possivelmente a angariar novos membros.

Levar o nome do Coro e, claro, da Universidade Nova de Lisboa, a palcos internacionais é a grande ambição do grupo. Está ainda entre o segredo dos deuses, o projeto que, possivelmente, estabelecerá uma ligação entre o Coro da Nova e coros de Madrid e Berlim.

 

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Sobre o/a autor/a

Tudo começou aos 6 anos quando voei pela primeira vez. Aos 12 atravessei sozinha o Atlântico rumo ao Canadá. Nos anos seguintes as viagens foram muitas. O que foi comum a todas elas? Um caderninho de memórias para mais tarde informar quem não teve a oportunidade de embarcar. Nasci na Ilha Terceira, pela qual sou apaixonada, mas sonho ser uma cidadã do mundo.

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