A (in)tolerância dos (in)fiéis

0

Aquilo que o filme Os Olhos da Ásia (1996) tem, que O Silêncio (2016) de Scorsese não tem, é a ideia de contemporaneidade, que se reflete numa perspetiva futurista do passado da “limpeza cristã”. 

O Japão do século XVII considerava que os cristãos falavam a língua da traição e que pretendiam intrometer-se na cultura e religião japonesas, interferindo com os costumes e o governo do país para assumir o território. Esta inquietação nacional – uma simbiose entre sentimentos de estranheza, incompreensão e revolta – despoletou do lado japonês a intolerância que desenhou as linhas do decreto de expulsão dos 300 mil cristãos de Nagasaki, em 1614.

Os Olhos da Ásia (1996) foi realizado por João Mário Grilo, professor da NOVA FCSH. O argumento foi escrito em co-autoria com o seu colega da faculdade, Paulo Filipe Monteiro. A longa metragem retrata o fim do processo, quando a “limpeza cristã” já se posicionava numa fase avançada, obrigando os cristãos que restavam a abandonar Nagasaki em definitivo. A história engloba, entre outras questões, a ausência de uma base de entendimento comum entre Oriente e Ocidente, uma noção que já não vem de agora, estabelecida através da ideia de fronteira e de todos os limites traçados num mapa sem limite real algum.

Este é um filme com um toque de autenticidade e realismo, composto por algumas cenas gravadas sem guião, nas quais as falas são improvisadas. Uma das ideias com mais força n’Os Olhos da Ásia é a noção de circularidade. As coisas mudam, as posições e os autores invertem-se, a roda gira e o que está por cima passa a estar por baixo.

A personagem de Miguel  desempenha nesta obra o papel de ateu, que respira simultaneamente iluminismo e modernidade. É o catalisador da loucura de inspiração shakesperiana que tempera a tragédia. Nasceu sem fé, agarrado à Razão. Sem ele, a história ganharia contornos abstratos.

Há quem viva em função da fé ao ponto de se esquecer de si próprio, um comportamento que o ateu não aceita, por não chegar sequer a compreender as convicções católicas. Este paradoxo constitui a prova viva de que a fé e a religião procuram uma intensidade que não temos connosco. O ser humano vê as coisas, mas não experimenta a sua essência. A religião hoje requer provas e, a partir daí, as pessoas disponibilizam-se a coisas e atitudes não-religiosas. E há dois caminhos: ou fazemos coisas com a religião, ou a religião faz coisas connosco.

Os Olhos da Ásia (1996) recorda-nos de que sem cinema não há memória, incentivando o espectador a refletir sobre a força das palavras no plano religioso e a questionar-se sobre os limites da ética e a existência – ou inexistência – de Deus. Talvez o silêncio, como nos sugere o título do livro de Shusaku Endo (1966), faça o ser humano refletir de uma forma mais sóbria sobre as coisas da vida. Provavelmente, há quem prefira optar pela certeza de viver o agora em vez de morrer pela hipótese de viver eternamente.

Num mundo dialético, uma coisa nunca é realmente o que ela é. As pessoas procuram sempre ver o mundo como um enigma por resolver, quando elas próprias formam grande parte do problema. O cristianismo não vingou no Japão dos mártires, mas também não se adapta ao Ocidente de hoje. Uma obra controversa, complexa e democrática, que abre portas ao questionamento e à contradição.

O confronto de perspetivas e ideologias funciona de uma forma exímia no filme de João Mário Grilo porque quem o vê acaba por conseguir perceber as razões – ou paixões – que motivam determinadas ações. A isso chama-se tolerância, que foi algo que faltou ao “século cristão” do Japão e que continua a constituir uma lacuna nos dias que correm um pouco por todo o mundo.

Partilhe.

Sobre o/a autor/a

Envie uma resposta

Time limit is exhausted. Please reload the CAPTCHA.