Prantos, amores e outros desvarios (2016): um mergulho para dentro de nós mesmos

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Catorze contos publicados por Teolinda Gersão, professora da NOVA FCSH e vencedora do Prémio Vergílio Ferreira 2017, dão voz a personagens do quotidiano. Há neste livro um lugar para todas as conquistas ou frustrações que retratam os nossos estados de alma e nos fazem imergir em realidades prosaicas.


“Prantos, amores e outros desvarios” é uma obra ficcional, lançada em outubro de 2016 pela Porto Editora, que nos dá a conhecer catorze cenários que poderiam retratar o nosso dia-a-dia. Desde os conflitos interiores amorosos, como em “Pranto e riso da noiva assassina”, às frustrações profissionais e injustiças do quotidiano descritas em “O Meu semelhante”, as narrativas surgem como crítica à sociedade moderna, através de uma ligeira ironia presente no discurso.

Este é o mais recente livro de Teolinda Gersão que veio dar continuidade ao seu longo percurso em literatura. A autora começou por estudar Filologia Germânica nas universidades de Coimbra e de Tuebingen e estreou-se enquanto Leitora de Português na Universidade de Berlim. A paixão pelo ensino viria a ser sustentada mais tarde, ao dar aulas na Faculdade de Letras de Lisboa e, posteriormente, enquanto professora catedrática na NOVA FCSH onde lecionou Literatura Alemã e Literatura Comparada. Em 1995, optou por se dedicar apenas à escrita.

Muitos dos romances e contos de Teolinda Gersão são reflexos das viagens que fez e das experiências vivenciadas que enriquecem o seu estilo narrativo nestes géneros de ficção clássica. Lembremo-nos de alguns textos provocadores do diário ficcional “Os Guarda-Chuvas Cintilantes” (1984) que questionam o próprio processo literário e as formas convencionais da escrita, ou do romance “A Árvore das Palavras” (1997), inspirado na viagem a Moçambique, que também dá aso a inquietações contemporâneas através do choque de culturas.

Em “Prantos, amores e outros desvarios”, a autora cria, também através da escrita contemporânea, personagens que não se resumem ao sentido alegórico uma vez que, ao longo dos vários contos, estão presentes problemas universais. O próprio título do livro (“Prantos, amores e outros desvarios”) remete-nos para a complexidade da condição humana. Existe, em todas as realidades narradas, a necessidade de representar alguns confrontos através de antagonismos como o lado feminino e o lado masculino, o caos e a plenitude, a racionalidade e a loucura ou a verdade e a mentira.

A limitação de personagens ao longo da obra (“mãe”, “filho”, “esposa”, “marido”) e a relação sintagmática entre os mesmos, torna esta obra um extraordinário modelo não só de representação mas, sobretudo, de consciência e conhecimento. “Uma tarde de Verão” leva-nos a refletir sobre a forma como encararíamos um novo companheiro incapacitado e “As mimosas” remete-nos para a não aceitação e o desprezo do envelhecimento dos nossos entes queridos. Situações que retratam uma sociedade individualista e narcisista que tende a recorrer às melhores desculpas na existência de um compromisso.

A extensão de cada conto, que varia entre cinco e oito páginas, remete-nos para ações que têm tanto de simples quanto de arrebatadoras e aliciantes, pela rapidez com que se desenvolvem. Uma prova de que Teolinda Gersão se destaca na arte da short story e que mesmo o que está subentendido ou oculto assume importância. O último conto intitulado “Alice in Thunderland” diferencia-se da restante coletânea pela extensão de 25 páginas e pela diferente temática. A autora consegue, através deste conto, apresentar-nos uma versão diferente da que conhecemos como “Alice no País das Maravilhas” (1885), e dá conta de alguns motivos ideológicos, pessoais e profissionais que influenciam o seu processo de criação de uma obra literária.

Ao longo dos textos, nota-se uma tentativa de aproximação às gerações mais novas através de uma escrita simples, corrente e, por vezes, irónica. Ainda assim, o humor presente no discurso não retira a seriedade dos temas. Já a capa do livro, ilustrada através de um desenho simplista, pode não ser o suficiente para que a obra se destaque num mercado editorial, tendo um efeito contrário ao esperado. As gerações de leitores mais novas tendem, cada vez mais, a rejeitar aquilo que, aos seus olhos, tem um caráter infantil.

Ainda assim, há, nesta obra, espaço para todas as ambições e medos, todos os sonhos e desilusões de várias gerações, que fazem de “Prantos, amores e outros desvarios” uma alternativa às tendências vulgares presentes noutras obras de ficção.

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Sobre o/a autor/a

Beatriz Lopes

Muito antes de aprender a ler, já contava estórias. O peso dos livros nunca me agradou, mas sempre fiz questão de trazer uma pergunta no bolso e de instigar aqueles que me rodeavam a pensar. Foi a curiosidade que me levou a aventurar no Mestrado de Jornalismo na NOVA FCSH. A paixão por rádio viria a surgir aos poucos, entre viagens de Coimbra a Lisboa, mas sempre houve tempo para mergulhar nos caracteres a preto e branco que todos os dias ganham uma nova cor. A cor da paixão pela verdade e por esta estranha efemeridade que me move.

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